Antes de pensar em ter filhos, tenha um cachorro.

Depois de um ano de casados, minha esposa e eu sentimos a necessidade de ter um animal de estimação. Um belo dia chego em casa e quase tropecei numa bolinha de pelos: era a Mel, um poodle com um mês de vida. Como pais de primeira viajem (e era assim que nos sentíamos) corremos para a PetShop e adquirimos tudo o que você pode imaginar que um filhote precisa: cama, ração, roupinhas, ossinhos, coleira, acessórios, brinquedinhos, pelúcias, além de consulta com veterinário, exames e vacinas.
Com a chegada da Mel também vieram nossos medos e inseguranças: será que somos capazes de cuidar de um filhote que dependerá de nós para tudo? Que tipo de ração a Mel comeria? Quantas vezes por dia? E se ela não comer? Toma água depois de comer ou não? E se o cocô estiver mole? Ela comeu tanto que vomitou e agora? Ou seja, o cuidado era tanto que nos tornamos reféns do medo.
Com o tempo fomos ganhando “experiência”. A Mel foi crescendo e com ela foram surgindo as doenças que qualquer animal tende a ter… e tome estresse! Morávamos num apartamento, passávamos o dia inteiro fora de casa e às vezes, em nosso horário de almoço, ou eu ou minha esposa atravessava a cidade para ver como a Mel estava.
E nas férias, como era? Eu explico… acho que éramos o único casal que tirava férias fora de temporada, ou que viajava para um hotel ou pousada no início da semana. Isso mesmo! Na segunda-feira, para locais que aceitavam animais e que não tinham hospedes. Mas não poderiam deixar a cachorra com alguém da família para vocês viajarem e curtir um pouco? Você não está entendendo… a Mel é um membro da família e não queríamos dar trabalho a ninguém porque a Mel precisava comer, passear, brincar e precisava de alguém para limpar seu coco, xixi, etc… Mel viajava e curtia com a gente!

Depois de alguns anos, um belo dia me vi sentado na sala assistindo televisão, minha esposa no sofá lendo uma revista, a Mel deitada na sua caminha, a casa toda arrumada, limpa, tudo bem organizado, um silêncio total… eu disse: Peraí! Tem alguma coisa errada aqui! Foi aí que decidimos em ter um filho. Mas ter filho com animal em casa, com pêlo, xixi, cocô, barulho, latidas…. Sim e porque não? Mas o cachorro pode estranhar, sentir ciúmes, atacar o bebê e comer ele vivo….
Depois de um tempo, nos mudamos do apartamento para uma casa e tivemos a nossa filha, a pequena Mirela, que hoje está com quatro anos. Quando a Mirela fez a primeira troca de fraldas, ainda no hospital,l eu levei para casa e coloquei na caminha da Mel, para ela sentir o cheiro e ir se acostumando com a chegada da nova integrante da família. A Mel acompanhava de perto as horas que a Mirela mamava e sempre ficava vigiando quando ela dormia. Quando a Mirela acordava, a Mel vinha correndo avisar, tipo… a Mirela acordou!

Sempre induzimos o respeito entre Mirela e Mel… ensinamos cada uma a respeitar o espaço da outra. É lindo de se ver a amizade entre uma criança e um animal, o carinho que cada uma tem pela outra, as brincadeiras e o cuidado que é recíproco. Só para ter uma ideia, é a Mel que acorda a Mirela todos dias de manhã para ir a escola. A Mel uiva, imitando um choro, quando a Mirela chora por algum motivo, como se estivesse compactuando ou defendendo a meia-irmã.

Mas aí você deve estar se perguntando… onde eu quero chegar com isso?
Nunca pensei em criar um animal apenas por criar, por ter diversão em casa, ou por ter a raça do momento, ou por ser um cão de guarda. Para criar um animal você precisa se doar, estar disponível, saber cuidar, impor, trocar afetos… Assumir tudo de bom e ruim porque nem sempre serão flores e diversão. Conheço a Mel só pelo latido quando chego em casa. Se não latiu, se não brincou, se comeu, se quer ficar deitada, quieta, pode ter certeza que ela não está bem, tem alguma coisa. A mel me ensinou muitas coisas mas a mais importante delas foi : OBSERVAR.
O mesmo acontece com filhos. Colocar no mundo é a coisa mais fácil, mas para criar você precisa estar disponível, dar amor, carinho, orientação. Fico abismado em saber de pais que não sabem nem trocar fraldas de seus filhos, que trabalham, passam o dia fora, tem vida social toda noite, finais de semana e deixam as responsabilidades paternas para babás, parentes ou amigos. Não sabem observar se o filho se alimentou ou dormiu direito, se está bem na escola, se os amigos são boas companhias… Tudo bem, vai! Sabemos que o grande vilão dos relacionamentos entre pais e filhos é a falta de tempo. Então faça valer este pouco tempo que você tem, faça ser útil, transforme QUANTIDADE em QUALIDADE e vai sentir a diferença.

Por fim, o amor que você sente por um filho jamais vai ser igual ao amor que você tem por um animal de estimação. Já dizia a Dra. Silvana, veterinária da Mel há mais de dez anos, e tive que vivenciar para crer. Mas te digo uma coisa, trate-os e crie-os com amor, carinho e respeito que é do seu lado que vão estar quando você der seu último suspiro.

*Neste momento que escrevo este post a Mel está deitada embaixo da mesa, aos meus pés… esperando eu desligar o computador e ir me deitar para poder se juntar a sua maior amiga.
Será que só eu penso assim? Alguém já vivenciou algo parecido? Me conte…
Confira abaixo algumas fotos:
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