palhaco

Quando eu era pequeno, o meu herói preferido era o Batman e a coisa ficou mais séria quando meu primo e eu havíamos ganhado uma roupa do homem morcego. Ninguém de nós queria ser o Robin… o lance era Batman! Passávamos o dia todo brincando com a tal fantasia e nossas mães esperavam a gente dormir para tirar a dita cuja, lavar e colocar na secadora para que, no dia seguinte, poder usar novamente. E quando eu acordava  já perguntava logo da roupa do Batman pra minha mãe e a minha sensação era que, ao colocar a roupa eu me transformava, tinha o poder, me sentia super e iria resolver todos os “problemas” que uma criança de cinco anos de idade tem.
Com o passar dos anos, as minhas  ferramentas para resolver os “problemas” foram mudando. Em outra época a ferramenta era o video-game e depois passou a ser a bicicleta. Ah… minha bicicleta! Eu fazia tudo em cima dela, várias manobras, eu tinha uma equipe, uma gang e por ter um estilo muito radical acabava ganhando o respeito dos meus amigos e também a admiração das garotas.

Cresci, tirei a carteira de motorista e ganhei um carro do meu pai… outra ferramenta de resolução de “problemas” que te leva para qualquer lugar, atrai mais amigos e facilita a paquera.  Tem carro? Então era só arrastar. Terminei o colegial, entrei para a  faculdade e me formei. Precisava do diploma, outra ferramenta para resolver todos os meus “problemas”: ter uma profissão, conseguir um trabalho, poupar dinheiro… ser alguém na vida. Mas ser alguém na vida só? Não… preciso de uma parceira, uma companheira… outro “problema” resolvido. Namorei, noivei e casei! Ufa, agora é só curtir a vida… mas peraí, tá faltando mais alguém! E lá se vão mais de dois anos tentando engravidar e eu morrendo de vontade de ser pai… até que Mirela nasceu. Mais um “problema” que foi entregue nas mãos de Deus e foi resolvido.

Ser pai foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, ainda mais porque a Mirela foi muito desejada. Tudo triplica… os cuidados, os carinhos, a dedicação e o amor. Ah… o amor, o amor de um pai pelo seu filho. Mas ela é tão pequena, como vai entender isso? Mais um “problema” na minha vida. Eu queria que a Mirela entendesse o quanto ela era desejada e amada por mim e pela mamãe. Eu sentia um vazio no peito e sempre ficava no vácuo toda vez que eu falava “Filha, eu te amo muito!”. Ela ouvia mas não entendia. Virava, pegava um brinquedo e VRUMMMMMM… saía correndo pelo corredor da casa. Que desespero!

Até que um dia, entre uma brincadeira e outra ela pega no meu rosto, me puxa e olhando bem nos meu olhos solta a frase mágica: “Papai, eu te amo muito, muito… muito! Fiquei sem chão. Minha vida toda passou em milésimos de segundos naquela hora… e percebi que nunca tive “problemas”, que tudo foi besteira, tudo foi em vão. A fantasia do Batman, o video-game, a bicicleta, as manobras, as minas, o carro, profissão, dinheiro… Quando seu filho olha pra você e diz que te ama, aí sim… você tem um “grande problema”. Porque você, PAI/Mãe, passou a ser a referência do maior sentimento que é único e puro do ser humano: o AMOR!

É em você que seu filho vai se inspirar e conhecer outros sentimentos como carinho, afeto, respeito, segurança… E agora? Eu tinha que resolver mais este “problema” em minha vida… e estou resolvendo.

Quando chego em casa depois do trabalho, visto minha nova fantasia (um calção, camiseta, chinelão)  e volto a ser criança novamente, sem nenhuma regra… Eu posso ser o que a Mirela quiser, um “píncipe” que virou sapo, um dançarino de balé russo que rodopia até cair no chão ou um palhaço vesgo, maluco que fala cuspindo… porque o meu maior “problema” hoje é manter o seu sorriso no rosto e fazer com que ela nunca se esqueça de mim!

Com licença… “Quem quer pipoca levanta a mão?” 🙂

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